quarta-feira, 21 de maio de 2008

Da motivação

O presente artigo expõe uma reflexão, sempre inacabada, sobre a motivação. Porque se trata de uma das principais questões levantadas por qualquer praticante de Parkour, e, até, de qualquer pessoa que se proponha a si mesma a conquista de algo, senti uma necessidade de enquadrá-la, defini-la, tanto quanto possível.

Creio que a motivação varia inversamente com o hábito. Se tomarmos a primeira como uma variável activa, o segundo podemos tomá-lo como uma variável passiva, ambos produzindo o mesmo efeito, isto é, a acção. Quero dizer que uma acção pode ser o produto de, ou motivação, ou hábito. Não creio que sejam mutuamente exclusivos, só que, enquanto a motivação tem um papel activo, excitando-nos, o hábito tem um papel passivo, ou apassivante, inibindo-nos. A motivação gera acção consciente, o hábito gera acção inconsciente. Acção, aqui, é tomada como um termo substituível por atitude, reacção, mesmo, num sentido próprio, emoção.

A motivação força um caminho novo para as nossas acções, leva-nos a querer fazer coisas novas, desvia-nos de um padrão de comportamento que já conhecemos e faz-nos criar e explorar outros. O hábito, por seu lado, faz-nos tomar acções que já conhecemos, comportamentos cujos efeitos não serão mais uma surpresa, mesmo que continuem a dar-nos prazer. Mais ainda: ele inibe a nossa vontade de procurar coisas novas para fazermos. Na medida em que, para uma dada acção, nos faz exigir cada vez menos racionalização – uma ponderação dos resultados a alcançar, da experiência prestes a ser vivida – como que vai adormecendo em nós a procura de um certo distanciamento que essa racionalização nos permite e que, por vezes, é necessário para que possamos realmente escolher fazer coisas novas.

Se tomarmos por analogia o percurso das gotas de água sobre um vidro, diríamos que a primeira das gotas a contactar com a superfície trilha um caminho por entre muitos possíveis, levada por um factor que aja sobre ela sob a forma de motivação, que, no seu caso, é o caminho que ofereça menos resistência à sua passagem. Devido à diminuição subsequente da força de atrito (resistência), todas as gotas seguintes serão conduzidas pela vala que a primeira criou com a sua passagem À medida que mais e mais gotas vão passando, vai diminuindo a quantidade de resistência que se opõe a cada nova passagem. Acontece, pois, que estas são influenciadas pelo mesmo factor que a primeira, a menor resistência, e da mesma forma, são motivadas, devido à diminuição progressiva dessa resistência com cada nova passagem. Pode pôr-se o caso, porém, (que é o que acontece connosco) de chegar uma altura em que, permanecendo o factor que age sobre cada gota (a menor resistência), este deixar de o fazer enquanto motivação, por exemplo se houver uma saturação da superfície do vidro e se torne impossível diminuir ainda mais a força de atrito. Neste caso, já nada há, para cada nova gota que cai sobre o vidro, que motive a seguir o trilho feito pelas gotas precedentes em vez de outro por onde pudesse ir, pois a resistência já não poderá diminuir mais. O que as leva, então, a seguir pela mesma via? O hábito, quer dizer, o nível de resistência mínimo, agora invariável, alcançado pelas predecessoras.

No nosso caso, para além das razões que suportam, ou justificam, o agirmos desta ou daquela maneira, e o possível efeito motivador que exercem sobre nós, há igualmente uma progressiva atenuação desse efeito motivador, como que um desgaste temporal da nossa capacidade de sermos afectados da mesma maneira pelas mesmas razões. Cada vez que agimos tendo em mente uma razão qualquer, essa razão perde valor motivador, sentimo-nos menos motivados. Falo aqui dos factores, causas, razões, que, de facto, produzem uma alteração interna forte, que mexem connosco, que nos devolvam a um sonho de podermos ser qualquer coisa e, como que embevecidos por uma qualquer quimera, nos façam esquecer aquilo que, por hábito, tínhamos planeado fazer e nos levem a um outro lado, diferente e novo. Há outros, certamente muito importantes também, cuja utilização que fazemos deles diferem, porém, seja pela sua abstracção, seja pelo seu carácter assumidamente utópico, seja, como no caso de um sentimento religioso, pela sua magnanimidade quando em comparação connosco. A estes, a que normalmente designamos por “grandes ideias” ou ideais, socorremo-nos para justificar uma posição tomada, geralmente quando em conversa com outras pessoas, onde procuramos, tal como num debate no parlamento, defender uma causa, uma visão do mundo. Neste caso, creio que o seu efeito é de inspiração, e não tanto de motivação. Por exemplo: O conhecido argumento, em prol da actividade física e do Parkour, de que é necessária a preparação para situações extremas, para emergências, para ajuda comunitária, é uma das ideias que age como inspiração para a prática da modalidade, como justificação para terceiros e, se reflectirmos sobre isso, para nós mesmos. Não é, porém, um verdadeiro factor de motivação. Isto porque, creio, no plano das emoções, das inclinações, das atitudes que definem as escolhas no nosso dia-a-dia, elas não agem com nenhum tipo de energia nova. Elas são as bóias que sustêm o barco, mas não podem ser os motores que o empurrem avante. Talvez por isto estas raramente mudem ao longo do percurso do traceur.

Os factores que nos motivam – os verdadeiros motivos –, aqueles em que, pela sua presença concreta no nosso dia-a-dia, pensamos ao escolhermos sair de casa para treinar, não podem estar tão afastados de nós quanto essas ideias. Eles têm que ser capazes de produzir um efeito no agora, no presente. Um exemplo deste tipo é dado pelo David Belle num conhecido documentário sobre o Parkour onde, imediatamente antes de se lançar de um telhado para a relva, fala da adrenalina que é possível sentir com a prática do Parkour. É verdade que, ao referi-la, tornou-a numa ideia abstracta, desapossou-a da emoção e da materialidade que, afinal, só ele estava a sentir no momento em que falava. Não esqueçamos que se estava a referir a terceiros e, por isso, a necessidade de tornar esse sentimento rudimentarmente acessível a todos nós. Importa, com este exemplo, questionarmo-nos sobre se, nesse momento, ele invocou para si o ideal humanista de ajuda do próximo, ou o lema ““etre fourt pour etre utile”. Creio que não…

Numa palavra, esta distinção resume-se muito bem na visceralidade com que as ideias e as razões nos afectam na nossa prática diária, e é aí que reside a possibilidade de nos motivarem e de, com o tempo, nos habituarmos a elas.

É precisamente relativamente a estes, na transformação da sua capacidade de nos afectarmos, que o jogo motivação/hábito acontece. Quando a sua força deixa de se fazer valer, ou seja, quando deixamos de ter necessidade de nos auxiliarmos nessa razão para tomarmos determinada acção, então passamos a agir por hábito. Continuamos a agir, não porque algo nos empurre para tomarmos essa acção, apenas porque nada nos empurra a tomarmos uma acção diferente dessa. Desta forma, o hábito pode ser encarado como uma inibição da força de motivação de um determinado factor para agirmos de determinada maneira. Ele vem, por força de uma eficácia e poupança de energia, substituir a motivação (mas nunca os factores em si) na nossa condução, tornando-a desnecessária.

Se tomarmos novamente o exemplo dado pelo David Belle, alguém em quem, julgo, o hábito exerce um papel muito mais forte do que a motivação, de resto, tal como na maioria dos veteranos do Parkour, a adrenalina a que se refere durante o salto pode ser uma forte razão que leve alguém que nunca praticou Parkour a calçar uns ténis e a experimentar um salto daqueles. Essa pessoa nunca tinha tomado essa acção. Um determinado factor, a sensação de adrenalina, exerceu um efeito de motivação sobre essa pessoa, ou seja, levou-a, pela sua própria imaginação, a considerar uma acção que, até então, nunca tinha ponderado como possível para si e, contra o que é hábito seu, saiu de casa, trepou um muro qualquer e lançou-se nessa experiência. Para alguém como o David Belle, o hábito do treino diário, já profundamente enraizado, leva-o à mesma acção que a esse novo traceur, e, ao fazê-lo, o factor que exerce influência nele é o mesmo, a adrenalina. Porém, a sua experiência já não é nova, a acção tomada é a mesma que no dia anterior, e no outro, e no outro e, a menos que algum outro factor o motive a tomar uma acção diferente, o hábito criado por si em si fará com que, por muitos dias que virão, ele calce os ténis e se lance de um telhado abaixo. Para esta acção específica, o Belle não precisa já, ao contrário do novo traceur, de ser motivado pela possibilidade da descarga de adrenalina. Ele já a conhece, o que não quer dizer que não sinta igual prazer de cada vez que ela acontece. Pelo contrário, é precisamente o conhecimento pleno desse efeito que tornou desnecessária a motivação, e fê-lo, provavelmente de forma inconsciente, aceitar como um hábito a prática diária do Parkour.

Uma outra forma de vermos a relação entre a acção, a motivação e o hábito, é tomando em conta o trabalho realizado por nós em nós, quer dizer, pela nossa vontade mais consciente sobre o resto dos nossos interesses, apetites e inclinações, até nos levarmos à opção por uma acção. Na analogia descrita acima, diríamos que, quando as primeiras gotas iam passando, a diminuição da resistência do vidro motivava-as, enquanto que elas próprias iam contribuindo para a diminuição dessa resistência, ou seja, iam realizando trabalho, contribuindo para a motivação das gotas que viriam a seguir. As últimas gotas, as conduzidas pelo hábito, já não realizavam trabalho nenhum, porque a saturação do vidro já não permitia uma redução da resistência. Elas eram conduzidas pelo trabalho outrora realizado, mas já não contribuíam para a motivação posterior. Podemos supor uma ligação entre a motivação que nos confere determinado factor e o trabalho que realizamos em nós, ou seja, as mudanças que somos levados a produzir pela nossa vontade na nossa forma de agir, no nosso quotidiano, nas nossas escolhas. Descobrimos que não estamos motivados a fazer algo quando, para o fazermos, já não consciencializamos completamente, quando já não há Dúvida, questões, pormenores a serem acertados.

Não é de supor, porém, que, no conjunto das acções mais recorrentes do nosso quotidiano, aquelas que, pela sua necessidade, pela premência com que se impõem, enfim, pela memória que vão introduzindo na nossa prática diária, não seja realizado nenhum trabalho do tipo especificado. Quero dizer, há certamente uma vontade inerente à própria possibilidade de fazermos coisas, independentemente do móbil que a despoleta ou a forma como o faz em nós, e há, consequentemente, um trabalho realizado por essa vontade. Porque é da natureza humana a dinâmica emocional que traz a inconstância, raros são os momentos em que um leme seguro e firme seja dispensado, e é no trabalho que o nosso grande timoneiro interior realiza, que reside a própria possibilidade de fazer uma escolha. Se aceitarmos essa inconstância, cuja base está, em parte, na afectação constante da nossa sensibilidade pelo meio circundante, então podemos suspeitar da própria inconstância da nossa vontade e, quem sabe, de todo um espectro de matizes sobre que vai rolando com o passar do tempo e a transposição dos obstáculos diários, que definirão a força e a determinação dessa vontade. Mais que isso, determinarão a necessidade que, tendo em vista determinada escolha (para uma dada acção), teremos do seu carácter férreo, ou seja, da sua imobilidade, da sua permanência e salutar insistência em conquistar essa escolha, em tomar essa acção. Desta forma, ainda que possamos admitir a realização de um certo trabalho interno com qualquer acção tomada, menosprezemos aquele mínimo necessário para podermos funcionar correctamente e concentremo-nos antes naqueloutro suplementar, extra, aquele “boost” que nos desperte para algo que nunca havíamos feito anteriormente. E é aí que pode, talvez, residir a diferença, em termos de trabalho, entre a acção motivada e a acção habituada.

domingo, 11 de maio de 2008

Apontamentos

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Chegar ao castelo

A serra mostrou-se à nossa frente na manhã de um sábado com sol e uma temperatura amena. Antes de começarmos tive a sensação de estar à beira de um momento importante, uma descoberta, uma experiência intensa. Éramos dois a subir.
Primeiro as ruas da vila, íngremes e estreitas. Depois a estrada que abraça a serra. E finalmente o bosque. Escolhemos fazer o caminho a direito, o mais possível. Surgisse o que surgisse queríamos seguir em frente e tentar por tudo ultrapassar as dificuldades - muros em ruínas, silvas, fragas, árvores caídas, muita terra... O bosque foi ficando progressivamente mais despido e escarpado até que chegámos a uma imensa penedia que anunciava a aproximação ao topo. A escalada exigiu toda a força de braços e pernas que o treino havia conquistado, a irregularidade dos apoios pôs à prova todas as competências adquiridas. Compreendi que muitas delas nunca haviam sido verdadeiramente testadas mas por outro lado senti que estavam prontas, aptas, ansiando em segredo por este desafio.
O Remy, mais alto, chegava com menos apoios ao cimo dos penedos. Eu, mais pequeno, entrava pelas aberturas nas rochas e rastejava com mais facilidade. Até que chegámos ao topo dos rochedos e ao último desafio. A muralha do castelo, vertical à nossa frente, oferecia a subida mais exigente de toda a escalda. Usando as reentrâncias na parede subimos passo a passo, testando todos os apoios até tocar com as mãos nas ameias do castelo. Um último impulso e estávamos seguros no interior das muralhas.
Ao pousarmos as malas, feitas pesadas para optimizar o treino, senti-me invadido por uma sensação boa. Lá em baixo estava uma miniatura da vila de Sintra, brilhante sob o sol do meio-dia e ao longe, mergulhado numa leve neblina, o filão de onde originei, suburbano de possibilidades.

domingo, 6 de abril de 2008

A escola de música



















domingo, 30 de março de 2008

Cem por extenso

Garagens. Com um cheiro a pó, o espaço é jogado pelas sombras, vestido de uma cor baça pelas entradas de luz irregulares. O ritmo é marcado pelo timbre metálico da sarjeta, pisada pelos carros que vão entrando e saindo, indiferentes à sagrada beatitude do local.

A abundância de percursos que as garagens permitem leva a que, recorrentemente, planos já traçados se entrecruzem entre si, intenções se sobreponham, mesmo necessidades físicas se alterem. A riqueza da sua configuração desperta uma vontade infantil para a brincadeira, e facilmente nos soltamos à maré do improviso. Talvez seja preciso um sítio como este para que um treino de braços se torne na experiência nova de um treino de cem precisões seguidas.

A ideia, nascida na crescente tradição, mantinha-se adormecida. Levado pela distância inocente dos dois lados de um muro, conduzido pela sua energia pétrea, o meu corpo repescou-a, despertou-a, e, na repetição dos seus gestos, na quase monotonia dos seus passos repetentes, fez-me ver que a tinha posto em prática.

“Se fizesse cem precisões?”, atrasado, perguntei-me.

Depois da consciência, chegaram os cálculos e as medições. Sete pés, palmo de grossura, de uma textura áspera, dificilmente escorregadia. Um conhecido, é certo. Uma. Duas. Três. Com uma meta traçada sucedem-se questões, dúvidas, avançam-se hipóteses. Há um apelo a uma certa determinação, porque parece que um pensamento nunca vem só. Quatro. Não chega fazer a precisão, há que ter cuidado com a fluidez, polir cada passo. Cinco. Um número tão grande permitirá isso mesmo. Seis. São três. Da aterragem, de um lado do muro, ao outro lado, de onde parte a sétima precisão, são três passos no mínimo. Sete. Oito. Nove. Pontas dos pés. Dez. Pontas dos pés. Onze. Mais na ponta ainda. Doze. Treze. Quanto mais na ponta, menos o barulho no impacto. Catorze. Quinze. Milímetros abaixo dos dedos dos pés, a precisão oscila o mínimo. Dezasseis. Quanto mais perpendicular ao muro chegar, mais progressivo o contacto da área do pé com o muro. Dezassete. O joelho direito sugere uma mudança de exercício. O pequenino estalinho remete-me para o aquecimento. Também para a postura do corpo todo na aterragem, exige uma distribuição mais equitativa da energia no momento do contacto com a pedra amarela. Dezoito. Melhor. Dezanove. Estalinho. Vinte. Assim ainda não, mais cuidado, mais postura. Vinte e Um. Isso. Vinte e Dois. Vinte e Três......Vinte e Quatro..........Vinte e Cinco................Vinte e Seis........................Vinte e Sete....................................Vinte e Oito. A passagem deve poder ser mais fluida, mais eficaz. Vinte e Nove. O mínimo de tempo possível, mas mantendo-me em cima do muro. Trinta.............Trinta e Um..........Trinta e Dois.....Trinta e Três. Mais de seguida, ainda. Trinta e Quatro...Trinta e Cinco. Trinta e Seis.Trinta e Sete.TrintaeOito.TrintaeNoveQuarenta.

Descanso.

Há um desvio da atenção do muro, um olhar em redor, turvo. A necessidade de regular a respiração e as gotas de suor que vão brotando um pouco por toda a pele são produtos do exercício, do que este muro de sete pés tem para dar. Parar, por instantes que sejam, desviar a atenção e pensar noutra coisa, é como uma lufada de ar fresco. Deixar o muro, o exercício, o movimento, absorver-nos totalmente desampara também. Pode ser asfixiante…

…faltam Sessenta. Quarenta e Um. Quarenta e Dois. Quarenta e Três. Quarenta e Quatro. A concentração parece como o mergulhar da mão numa terrina com água quente. O contraste é evidente ao início, enquanto a diferença entre as temperaturas é maior. Abandonando a mão inerte, o tempo equilibra essa diferença, e a percepção de calor esmorece progressivamente. Perde-se, por fim. É uma pequena oscilação, da mão ou da terrina, que torna a desequilibrar as quantidades de energia térmica, avivando a sensação de novo. Quarenta e Cinco. Quarenta e Seis. Quarenta e Sete. Como se os pensamentos fizessem a terrina oscilar. Quarenta e Oito. Quarenta e Nove. Cinquenta. Metade. Cinquenta e Um. E o grau de concentração, que nos vai aproximando de um instinto do movimento, se perdesse. Cinquenta e Dois. Cinquenta e Três. É como se, por um certo receio do puro instinto, de uma incontrolada inconsciência, pensamentos despoletassem automaticamente, por sobrevivência, segundo as regras aprendidas pela evolução. Cinquenta e Quatro. Cinquenta e Cinco. Mas automaticamente porque obedecendo a um instinto também, outro instinto, como espécies animais que somos. O inapelável instinto humano de sermos racionais. Cinquenta e Seis. Guerra civil de instintos. Cinquenta e Sete. Cinquenta e Oito. Cinquenta e Nove. Sessenta. Sessenta e Um. Sessenta e Dois. Sessenta e Três. Durante o salto, a cadeia ruidosa dos pensamentos interrompe-se. Há uma teleportação da consciência. Sessenta e Quatro. Antes do salto: os sete passos são de distância. O local de aterragem dos pés está encolhido pela perspectiva. Há voz nos pensamentos, de receio, de encorajamento----»Sessenta e Cinco----»Depois do salto. Nova perspectiva. A localização detalhada dos pés. Introspecção, sobre as repercussões da aterragem ao longo do organismo. Sessenta e Seis. Sessenta e Sete. Sessenta e Oito. Mas é possível forçar pensamentos enquanto não há contacto do corpo com a pedra. Se se calam, uma curiosidade leva-nos a experimentá-los durante o voo. Sessenta e [o ruído, ensurdecedor, é pura desconcentração. A desorientação pode levar à queda e à dor] Oito. A inocente experiência provoca um desequilíbrio ao aterrar. Sessenta e Nove. Setenta. O desequilíbrio provocado lembra-me de que, até aqui, todas as precisões me têm colocado, incólume, no outro lado do muro. Setenta e Um. Setenta e Dois. Mas mostrando como há, apesar de o mesmo propósito ser cumprido por cada uma, inesgotáveis diferenças entre cada salto. Um ponto de partida igual para saltos distintos entre si. Setenta e Três. Setenta e Quatro. Este, por exemplo. Os pés chegaram ao outro lado com o meio da planta. Quase com o calcanhar. Mas o equilíbrio mantém-se. Setenta e Cinco. Setenta e Seis. Força a mais… Mas, meio segundo depois, o corpo imobiliza-se, sob a orientação da ponta dos pés, da compensação dada pelos tornozelos, da absorção feita pela dobra dos joelhos, das costas esticadas e firmes, do contra-balanceamento dos dois pêndulos, direito e esquerdo, gémeos simétricos, do suporte de um pescoço que, de dizer que sim, que não, que talvez, estabiliza, sem esforço, todo o crânio – os olhos que vêem, os ouvidos que sustêm o equilíbrio. Setenta e Sete. Setenta e Oito. Faltam poucas. Setenta e Nove. Oitenta. Vinte apenas. É como se fosse impossível saltar exactamente da mesma forma, em dois saltos diferentes. Oitenta e Um. Oitenta e Dois. Não podemos confiar na repetição milimétrica de um salto que já conseguimos, outrora, fazer perfeito. Repetição não pode querer dizer reprodução física exacta, somente repetição da mesma intenção em circunstâncias o mais parecidas possível. Mas há uma certa confiança, crescente em cada salto, na capacidade de adaptação que vamos ganhando. Uma adequação de um determinado movimento, feito diferente de cada vez, a uma mesma intenção. Oitenta e Três. Oitenta e Quatro. Com o mesmo objectivo, mas uma variabilidade indiscernível – da força da impulsão, do equilíbrio no momento do salto, da direcção certa, das distracções com que o meio ambiente na sua aleatoriedade, e os nossos pensamentos na sua volatilidade, nos podem surpreender –, a garantia de uma precisão bem conseguida é conquistada durante o salto, com a adaptação infinitesimal de que o nosso corpo é capaz. E é isso que transportamos connosco, das garagens, para qualquer outro local. Oitenta e Cinco. Do exterior, são braços que se movem, com gestos característicos, mas sempre diferentes. Oitenta e Seis. Pernas que, primeiro, esticam, depois encolhem, depois esticam de novo. Oitenta e Sete. Todo um movimento, em cada fase repetido, em cada fase diferente de outro anterior. Oitenta e Oito. Do interior, são músculos que se dobram, ossos que vibram, matéria que é queimada na produção de energia que é consumida. Oitenta e Nove. Uma acção para cada reacção que, do exterior, é observável. Confiança conquistada pela aprendizagem do nosso comportamento perante a inquietante variabilidade de cada salto, dos recursos que temos, e que vamos ganhando com o treino, para lidar com ela. Noventa. Faltam dez precisões. Quem nunca fez já dez precisões de seguida? Noventa e Um. Noventa e Dois. Noventa e Três. Noventa e Quatro. Noventa e Cinco. Noventa e Seis. Noventa e Sete. Noventa e Oito. Noventa e Nove. E se caísse agora? Cem.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Oleg-Gibão

Ninguém ficou indiferente. Não são muitos os que conseguem fazê-lo mas ele sim, ele tocou toda a comunidade e deixou o seu sinete bem lacrado em letras capitais. Apenas as pessoas excepcionais têm capacidade para o fazer porque hoje em dia a mediocridade dissipa-se na fecunda matriz da informação tão rapidamente como surgiu e nela só perduram aqueles que acrescentam algo de verdadeiramente relevante. Alegro-me ao pensar que a própria natureza desta matriz permite que qualquer um possa ser essa pessoa excepcional e fazer a diferença. Essa natureza praticamente assegura que alguém com uma ideia extraordinária ou uma determinação invulgar possa inspirar outras pessoas a uma escala absolutamente global. Desta vez a inspiração veio da Letónia, foi o Oleg Vorslav.
Há algumas semanas, o seu vídeo surgiu da matriz. Foi colocado on-line e o impacto que causou foi notável, o espectro de opiniões era de uma gama vastíssima. Para uns era fenomenal, para outros excessivo, para alguns estava mal filmado, para essoutro uma obra de arte. Essencialmente foi controverso, não houve de todo unanimidade em relação ao trabalho deste traceur letão. O seu treino nas barras foi comparado a não mais do que uma excelente rotina de ginástica, longe das técnicas e dos princípios basilares do Parkour, isto porque o protagonista movimenta-se de uma forma que não seria útil numa situação em que é necessário fugir ou perseguir, para alguns o propósito fundamental desta disciplina. A pergunta impôs-se, incómoda e polémica. É Parkour? No seguimento desta surgiu naturalmente outra ainda mais controversa. O que é o Parkour? Não é o propósito deste artigo responder a nenhuma delas. A discussão seria longa, exaustiva e tremendamente inconclusiva, pretendo apenas transmitir uma opinião que é pessoal e que sinto necessidade de partilhar.
Alguns comentários iam ao encontro da ideia de que o movimento do Oleg, ainda que não fosse útil, era uma demonstração excepcional de força e agilidade, que documentava assim um excelente treino para o Parkour. Estavam no entanto muito longe de reconhecer a inclusão dos recursos usados por ele na disciplina propriamente dita. E estava assim feita uma distinção que eu acho muito interessante e cuja discussão considero bastante fértil – A distinção entre o acto de fazer Parkour e o treino para fazer Parkour. Já por mais do que uma vez li ou ouvi opiniões que manifestam de forma peremptória que o treino não é Parkour, que o processo da repetição, da tentativa e erro, da preparação física e mental não fazem parte do acto que é o Parkour propriamente dito. Esse, reserva-se àquele momento em que somos confrontados com a necessidade de agir para nos ajudarmos ou para ajudarmos os outros, o momento em que somos, numa palavra, úteis. Na minha opinião o Parkour é necessariamente tanto a prática como acto. Parkour significa “percurso” em sentido estrito, é certo, mas também em sentido lato. Representa o “caminho” com todos os seus significados, o caminho para chegar ao outro lado de uma sebe ou para subir a uma árvore mas também o caminho que o traceur escolhe percorrer até um determinado objectivo. Para uns é a capacidade de sobrevivência, para outros é a utilidade, para outros ainda é a natureza estética da disciplina e para alguns será por exemplo o sentimento de pertença a um mundo sistematicamente mais urbanizado. Se limitarmos o Parkour apenas ao momento em que somos postos à prova então, tal como alguém escreveu pelo meio desta discussão, em 99,9% da nossa vida não há Parkour e sobre isto eu não podia sentir mais desacordo. Para mim o percurso é trilhado a todo o instante, há Parkour quando estou a fugir de um prédio em chamas da mesma forma que há Parkour quando estou a fazer uma sessão do Air Alert.
Se o Oleg Vorslav fez ou não um vídeo de Parkour só ele poderá dizer. Apenas a sua opinião subjectiva é realmente importante para esta discussão pois só ele saberá o que significa brincar naquela estrutura e qual é o sentimento predominante quando o faz. Se esse sentimento for aproximado ao enlevo da descoberta de um lugar que já lá estava antes de o encontrarmos, ao entusiasmo no primeiro contacto com as superfícies, à procura solitária de possibilidades que só aquela disposição exacta permite e ao êxtase provocado pelo sucesso de um primeiro salto, então acho que podemos dizer que se trata de um sentimento com o qual todos os traceurs se conseguem relacionar e que eu considero ser aquilo que constitui a própria essência do Parkour.
Mas de uma coisa não tenho dúvida, o Oleg abriu portas e janelas onde nem paredes havia. As respostas que ele dá àquele espaço são tão inovadoras que só consigo descrever o que senti quando vi o vídeo através de uma palavra – incredulidade, simplesmente não queria acreditar... Nunca tinha visto alguém aproximar-se das qualidades simiescas que o Oleg demonstra. É como se um estado físico muito evoluído caminhe na direcção contrária ao da evolução, por mais paradoxal que isto possa parecer. Este vídeo parece demonstrar que um ser humano com capacidades físicas extraordinárias está, em termos cinestésicos, mais perto dos outros primatas do que outro com uma capacidade física regular.
Resta-me apenas sugerir a visualização do vídeo e esperar que a discussão se mantenha aberta com base nestas e noutras considerações.

http://www.youtube.com/watch?v=EFOPF_f90O0

segunda-feira, 17 de março de 2008

Ainda em renovações